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Domingo, 1 de Agosto de 2010
Recortes de Imprensa



Os coretos também são importantes!  
Data: 08 de Setembro de 2006
Fonte: Gazeta das Caldas
Autor: Saikiran Datta

Os coretos também são importantes!

O estudo dos coretos pode ser um bom tema de investigação. Da primeira vez que vi um coreto em Óbidos, mais precisamente no Bairro Senhora da Luz, predominou a sensação de déjà vu. Havia algo de extraordinário. Lembrei-me ter observado algo parecido em Shimla, a capital de verão da Índia britânica. Era um coreto do período colonial, construído em 1922 sobre uma colina, ao pé de uma catedral.

A evolução deste conceito pode ser parcialmente atribuída aos ingleses, tendo sido patrocinado durante o reinado da rainha Vitória, a partir da segunda metade do século XIX. O coreto faz parte da cultura do Romantismo, no momento em que a arte, a música e a literatura vão buscar as suas inspirações à natureza. Os jardins ganham uma importância, tais como os quiosques e os coretos. São locais de recreação e de convívio onde se organizavam concertos musicais.

Mas a ideia original é bem mais antiga. Já no século XIII, os turcos ergueram estruturas poligonais ou os quiosques. A sua cobertura talvez tenha sido inspirada no formato da tenda. O viajante Marco Pólo deixou desenhos das tendas-palácios movíveis dos mongóis e estas claramente se aproximam da ideia dos quiosques. Os coretos tornaram-se num género de pavilhão aberto, abobadado e suportado de colunas. Tinham uma função de refúgio nos meses de verão, já que eram construídos nos jardins dos palácios reais. Os imperadores Mogóis da Índia (século XVI) construíram palácios de caça, quiosques-prazer e galerias panorâmicas para apreciar a monção indiana, rodeados pelo verde exuberante das suas matas. O Qush Khana mandado construir pelo imperador Akbar em Agra, cerca de 1570, é uma referência importante. O conceito de quiosque tornou-se num elemento-chave da arquitectura islâmica na Ásia. A ideia também se espalhou pelo Império Otomano. A palavra turca kö_k ainda hoje se refere aos edifícios do estilo otomano, feito em madeira e com diversos andares. Posteriormente, a ideia divulgou-se pela Europa, decorando jardins, praças e avenidas das cidades. Também deram origem aos observatórios.

Assim, como um conceito, os coretos em Portugal estão associados a um rico passado cultural, tendo servido como um palco para as bandas a actuarem. Óbidos não foi uma excepção. Estas estruturas têm o seu próprio encanto e um apelo estético. É a altura de valorizá-las e respeitar a sua existência. Durante a festa de Santo António, em A-da-Gorda, a actuação da banda local decorreu num palco de madeira, montado especialmente para a festa, sem que alguém tenha dado pela presença do coreto adjacente. De modo que, é desejável reutilizar estes locais para evitar o provável abandono por falta de uma função. O património é, usualmente, melhor preservado quando se adquire uma função. A sua preservação transmite um sentido de orgulho e de pertença a uma comunidade. Estes simbolos mantêm o povo ancorado e garante uma estabilidade demográfica.

O coreto é um ponto de referência para o povo. Tão marcante é a sua presença na consciência dos habitantes. Num inquérito recentemente realizado junto da população de A-dos-Negros, Ada-Gorda e Sobral da Lagoa, 89% dos inquiridos consideram o coreto como um património. Já na vila das Gaeiras, quando alguém precisa de chamar um táxi, muito provavelmente comunica ao taxista da seguinte maneira "sim, estou mesmo ao pé do coreto." No entanto, um residente aqui tem uma opinião ambígua quanto ao seu futuro. Ele associa-se ao património da sua terra e mostra empenhado em manter o coreto como um símbolo identificador e representativo da vila. Ajudara, há meio século, na montagem da sua cobertura. Na sua opinião, o coreto necessita de ser alargado e requalificado, uma vez que se encontra num estado desarranjado. Contudo, ele concorda com a sua demolição apenas no caso de vir a ser substituído por um novo. Igualmente, é a favor da ideia de restaurar a sua função original como um bandstand. Esta conversa teve lugar precisamente à sombra do coreto.

Por outro lado, o coreto que existe na aldeia de Olho Marinho mostra um bom estado de conservação, apesar de ter sido construído na década de 1920. O património desta aldeia encantou-me e os meus ouvidos virtualmente imaginaram um grupo de músicos a tocar uma melodia popular. Olho Marinho terra linda / Olho Marinho terra tão bela. Mesmo que as outras estruturas semelhantes, espalhadas praticamente por todo o concelho, antecedam ou sucedam o período referido, o facto é que estão a aproximar-se da marca de cem anos de existência, o que, em si, é um critério para valorizá-las como um património.

Há muitos que apreciam levantar-se, de manhã, ao som do sino da igreja com a vista para o coreto ou para a fachada da Quinta. Juntos estes elementos tornam a pessoa mais familiarizada com o seu ambiente natural. Os largos são locais de festas populares e de rendezvous, contribuindo para um sentimento de pertença colectiva a um passado comum.

Na aldeia de A-da-Gorda. pessoalmente observei uma ansiedade inexplicável em algumas famílias abastadas que querem ir viver para bairros mais ricos, abdicando um estilo de vida tradicional, confortável e seguro. Optam por uma casa moderna, com a fachada em vidro e alumínio importado, em vez de uma arquitectura tradicional portuguesa. Essas ambições nouveau riche nascem quando as nossas aldeias se transformam numa imitação pobre de cidades. Saikiran Datta

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